quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Laurentina



Moçambique acordou ontem com um outdoor que se veio a revelar um desastre de Public Relations.
Organizações feministas, mas não só, revoltaram-se contra a imagem e o slogan que consideram insultuoso para a dignidade humana.
A utilização do corpo da mulher é assunto eternamente polémico e continuamente popular, porque está provado que vende (não só aos homens, mas também às mulheres). O problema é que há sempre aguém que acha que África ainda é um colonato europeu, mas a mulher africana, afinal, também tem os seus direitos. Quer se chame Laurentina , Florentina ou até Marcolina.

Mário Rui

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Do fundo da décima primeira solidão de Setembro. A não olvidar!




Este mundo que nos diz respeito no seio do qual nós temos que temer e que amar, este mundo quase invisível, inaudível, do mandar delicado, do obedecer delicado, um mundo do "quase" em todos os apectos, escabroso, capcioso, pontiagudo, terno: sim, está bem defendido de espectadores gosseiros mas convirá nunca esquecer que estamos enfiados numa rede e numa camisa-de-forças, de deveres e, por vezes, não podemos libertar-nos. Hoje é a era das massas e cuidado porque algumas, pensando receberem um grande «dom», levam a nossa existência ao caos, ao labirinto. Prudência e vigilância é o que se aconselha, porque de outro modo, assim pode começar o nosso declínio. Disse! A vermelho!


Mário Rui

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Oriente nada de novo



«No momento em que escrevo, manda a praxe dizer, a propósito da Líbia, que ainda não sabemos ao certo como é que tudo vai acabar. Muito mais curioso, porém, é o facto de, após vários meses de encarniçamento noticioso e analítico, ainda não sabermos ao certo como é que tudo começou. Ninguém esperava esta “Primavera Árabe”. E a primeira inclinação foi para interpretar as insurreições à medida das modas ocidentais. Tivemos assim a “revolução do Facebook”. Vamos agora, que a ofensiva militar anglo-francesa fez cair Tripoli, falar da “revolução da Nato”?
Não quero estragar entusiasmos, mas a verdade é que nada do que estamos a ver é historicamente novo. A década de 1950 também teve a sua vaga de regimes em queda no Médio Oriente. Massas de gente nas ruas e praças, a maldizer os tiranos em desgraça, são uma faceta clássica das transições políticas nas autocracias da região. Já foi assim no Egipto, em 1919. Quando um poder se esgota e cai nestas sociedades segmentadas, tudo tende a regressar ao caos originário, até emergir um novo poder. Com sorte, o intervalo poderá compreender fases de guerra civil “suspensa”, como no Líbano ou no Iraque de hoje. Se quiserem, chamem-lhes “democracias”. Com a islamização em curso, não serão provavelmente seculares — o que não quer dizer que tenham de ser “jihadistas”.
Desde o século XIX, estas transições suscitaram por vezes promessas e expectativas de eleições e parlamentos (a primeira constituição da Tunísia é de 1861 e a do Egipto de 1923). Desta vez, a referência democrática tem mais esta razão de ser: os rebeldes perceberam a importância do patrocínio das potências ocidentais, cuja linguagem, por isso, precisam de falar. Daí, aliás, o esforço dos islamistas para passarem despercebidos. A mão do Ocidente, através da Nato, tem sido muito visível na Líbia. Mas a Líbia não é uma excepção. Até agora, os regimes derrubados foram os mais vulneráveis, pela sua dependência financeira e militar, à pressão ocidental (caso do Egipto). Os manifestantes da Praça Tahrir, tal como os guerrilheiros de Benghazi, resistiram e avançaram à sombra do Ocidente. Aquilo que fez a diferença no Irão em 2009 e o que distingue a Síria hoje é a improbabilidade de, nesses casos, o Ocidente ser efectivo ou esforçado.
Em suma, uma época de transição entre “sultões” no Médio Oriente conjugou-se com uma recaída do intervencionismo “humanitário” inaugurado por Clinton na década de 1990 e continuado por Bush em versão neo-conservadora. A questão é esta: porque é que o ataque da Nato contra a Líbia não mereceu as polémicas da guerra do Iraque? Em termos de “comunidade internacional”, esta intervenção também dividiu (a Alemanha escusou-se) e não foi menos “ilegal” (o “mandato” da ONU só serviu para ser abusado). Mas não vimos a esquerda marchar contra um “novo Vietname”, nem a direita mobilizar-se para um “choque de civilizações”. Porque Obama não é Bush? Porque não há infantaria americana no terreno? Porque o povo de Benghazi parecia em perigo, como os kosovars em 1999? Talvez. Voltámos assim, politica e militarmente, à época das campanhas da Nato contra a Sérvia. Enfim, nada de novo.»



Rui Ramos in Expresso

Freddie Mercury - The voice (a de Sinatra vem depois)


Nasceu a 5 de Setembro de 1946 na colónia britânica de Zanzibar. Os pais deram-lhe o nome de Farrokh Bulsara, mas foi como Freddie Mercury que conquistou o mundo. Sempre carismático e extravagante, Mercury conheceu os colegas da banda quando se mudou para Inglaterra com os pais aos 17 anos. Na faculdade partilhou o quarto com Tim Staffell, que tinha uma banda com Brian May e Roger Taylor. Não imaginaria Freddie Mercury que aqueles passariam a ser os seus maiores parceiros de aventuras e que, depois da saída de Tim Staffell, aquela banda, de nome Queen, formada sob os seus comandos, chegaria aos tops mundiais e tornar-se-ia numa das maiores da história da música, com mais de 300 milhões de discos vendidos em todo o mundo - superando os Beatles.Com um estilo inconfundível, Freddie Mercury tornou cada concerto num momento único, carregado de encenações teatrais, com cenários e roupas espalhafatosas. Sem vergonha e com muito carisma, Freddie Mercury tornou-se no símbolo da banda.Considerado por muitos como a melhor voz de sempre do mundo da música, o vocalista dos Quenn imortalizou temas como "Barcelona", "We are the champions", Under Pressure”, “Will Will Rock You”, “Love Of My Life”, “Somebody To Love” ou “Don’t Stop me now”. Músicas que ainda hoje passam nas rádios e televisões de todo o mundo. Músicas que se mantêm actuais e que continuam a inspirar gerações de músicos.Entre os Queen e colaborações com outros artistas, Freddie Mercury teve ainda tempo para lançar dois álbuns a solo, aclamados pela crítica e pelos fãs, mas longe dos mega-sucessos da banda em si.Em 1991, com Freddie Mercury muito doente, surgiram rumores de que o cantor tinha sida, o que se confirmou numa declaração feita pelo mesmo a 23 de Novembro, apenas um dia antes de morrer. Freddie Mercury morreu na noite de 24 de Novembro de 1991, na sua casa, chamada de Garden Lodge, que ainda hoje atrai as atenções dos milhões de fãs. Continuam a deixar flores, mensagens e lembranças à porta da mansão, Freddie Mercury continua a ser lembrado. Como foi cremado, o músico não tem uma sepultura e por isso os sítios por onde passou, como a sua casa, tornaram-se autênticos memoriais. O local onde as suas cinzas foram lançadas não é oficialmente conhecido, mas segundo algumas fontes, apenas Mary Austin, ex-namorada de Mercury, saberá o verdadeiro paradeiro, acreditando-se que terão sido lançadas num rio na Suíça, país adoptado pelo músico, onde conta também com uma estátua em sua lembrança, inaugurada em Novembro de 1992.Mas mais do que a sua morte, hoje o Google, à semelhança do que tem acontecido com algumas datas simbólicas, comemora a vida de Freddie Mercury com uma animação musical.Para assinalar o aniversário do cantor, os Queen vão disponibilizar, pela primeira vez, o “Live at Wembley Stadium” na íntegra, no Youtube. O concerto realizado em Julho 1986 em Londres, um dos últimos espetáculos dos Queen, é considerado histórico na carreira da banda e será lançado também numa edição especial em DVD. Assinalando a data, também o canal Biography Channel se associa à homenagem transmitindo hoje, às 22h25, um documentário que sublinha "o papel único que Mercury desempenhou como músico que revolucionou o rock britânico".



Mário Rui

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cobradores de impostos


Começo a ficar deveras farto, poderia dizer cansado mas até essa fase já passou, sendo que é aos burros, mamíferos solípedes, perissodáctilos, menos corpulentos que o cavalo e de orelhas compridas, espero que tenham percebido bem a caracterização simples da espécie a que me refiro, que se costuma, quando de barriga bem nutrida, dizer que estão fartos. Se quiserem chamem-me de burro também, eu não vos levo a mal, mas a verdade é que cada vez percebo menos do que por aí vai no que aos impostos diz respeito. E haverá por esse país fora muitos mais burros que, como eu, perplexos ou só revoltados, começam também a desconfiar se toda esta vassalagem e cobrança, não vai dar em nada no que toca ao país que um dia sonhámos para os nossos filhos.

Ou me engano muito ou isto vai ser vendido a talhões. Vendido? Desculpem, talvez oferecido e ainda assim leva jeitos de que ninguém lhe pegue. Oferecido já é muito caro. Perdoem-me se belisco minimamente o patriótico-orgulho de alguém mas, se assim pensam, estão enganados. Sou tão português quanto qualquer outro lusitano, eventualmente apenas com uma pequenina diferença. Essa diferença tem a ver com o facto de achar, há muitos anos, que o corpo se purifica pelo saber e eleva-se por tentativas conscientes.

Ora, de há 37 anos a esta parte, nem o corpo se tem purificado pelo saber nem as tentativas conscientes para o elevar têm surtido efeito. Triste sina a minha. Triste sina a nossa. É desumano que abençoemos quem nos amaldiçoou. Por mim ando muito, mas mesmo muito magoado com esta gente que levou o meu país à falência. Magoado, por me terem mentido durante tantos anos, mas sobretudo por não poder voltar a acreditar nessa mesma gente.

E agora reparem. Já não chega o que o triunvirato, leia-se associação de três cidadãos, cá para nós entidades poderosas para açambarcar toda a autoridade, cá veio fazer, e parece que para ficar por muito, muito tempo, impondo como condição para não morrermos à mìngua, que nos dispamos de todas as nossas vaidades, rendas e orgulhos e, ainda por cima, aquilo que me chega aos ouvidos a cada dia que passa, são novas lusitanas vozes a clamarem – é este o termo certo – por mais impostos.

Do governo, embora contrariado já eu sabia que assim ia ser. A corrupção, como expressão de uma ameaça, a anarquia nos instintos de alguns, afectou gravemente o fundamento dos afectos a que se chama “vida”. Foi esta péssima pseudo-aristocracia que nos levou ao fundo. Uma pseudo-aristocracia que deveria ter tido como ideal não uma função mas antes um sentido. O de elevar a populaça à condição de seres iguais e não à exploração, ao sacrifício de inúmeros homens que, incautos e julgando servir uma boa causa, acabaram oprimidos e reduzidos a homens incompletos, a simples instrumentos.

Pode isto parecer o discurso do descrente, do desanimado, mas o que é certo é que tudo o que é de hoje tomba e sucumbe. Indignem-se os puros do modo que muito bem entenderem. Mas indignem-se! E nunca esqueçam que para os puros, tudo é puro. Para os porcos tudo é porco.

Agora, de outras bandas, tão portuguesas quanto a minha, é que não esperava sinceramente mais um clamor. Um dos últimos, quiçá o derradeiro apelo, veio directamente do bastonário dos médicos que defende a criação de um imposto, mais um, sobre a fast-food. Ora Sr. Dr., trate lá dos doentes e deixe os que ainda são bravos na governança no desempenho tranquilo e, espero, pela última vez, sério, do trabalho que têm pela frente. A fast-food Sr. Dr. é a broa e o caldo quente da minha gente. E com a sua pretensão fica-me a ideia de que o Sr. quer taxar outra coisa qualquer. Será a comida rápida, porque escassa, de quem tem que ir à sopa dos pobres? Também é fast-food mas só a come quem às vezes nem prato tem para a aquecer.

Com tanta parda eminência a ditar “faladura”, há-de chegar o dia, e não demorará muito, que a gota de água se achará rio. Nessa altura, o pastor, o marceneiro ou o mendigo hão-de revelar maior génio do que todos os lógicos que nos arrastaram para este abismo.

Mário Rui

Sorrisos - Manufacturamos realidades




Mário Rui

FazDebook


Se acha a cultura cara, então experimente a ignorância.

Mário Rui (Parte II)

Mais do mesmo



O dirigente do Bloco de Esquerda, Francisco Loução, voltou a dizer, ontem num comício, que "precisamos de um 25 de Abril na Economia para proteger o que é nosso". Deve estar esquecido do 11 de Março de 1975. E se as pessoas que o ouviram soubessem o que representou essa data e o que significaram as nacionalizações que se lhe seguiram, tinham fugido a sete pés do dito comício. É que é sempre bom não ter a memória curta. E parlapatões políticos já os temos aos montes. Falar é fácil. Difícil é fazer.



Mário Rui

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

FazDebook



Se acha a cultura cara, então experimente a ignorância. (citação jornal O Público)

Mário Rui (Parte I)

Compreender e Unir



Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento. Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia. Reflitamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita. Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.


in 'Considerações' Agostinho da Silva

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Das longas viagens




O jornal i dá hoje conta da visita de José Sócrates à sua sempre fiel amiga Frau Angela Merkl. O (re)encontro terá acontecido na passada sexta-feira, dia 26 de Agosto e, até aqui, concedamos aos dois, apesar de tal jornada me causar uma certa estranheza, o benefício da dúvida quanto a tão amigável viagem e seu propósito. O que não deixa de ser curioso é o facto deste trivial abraço de amizade ter acontecido uma semana antes de Passos Coelho aterrar em Berlim para também se encontrar com a dita senhora.

Mas as viagens de Sócratess não ficaram por aqui. Dias antes, este diplomata freelancer, aterrou em Madrid, de novo antecipando-se a Passos Coelho para mais um amigável encontro privado com o seu melhor “amigo político” Zapatero. Fonte oficial de Moncloa confirmou a visita mas sem dar nota do dia em que terá ocorrido. Tudo se terá passado em nome da ibérica irmandade, digo eu.

Antes de continuar devo dizer que, logo aqui, ressalta também uma péssima nota para o jornalismo português já que, tão inesperadas viagens, deveriam ter sido objecto de aprofundado tratamento. Não foram. E teria sido importante dar a conhecer aos portugueses o que anda Sócrates a confidenciar a estes dois governantes.

E digo confidenciar porque, tanto quanto me parece, não se viaja para o longínquo com o simples propósito de tomar um chá. Se se tratasse de dar um aperto de mão a David Cameron, enfim, podia ter a ver com o tradicional chá das cinco ou com uma partida de pólo, sabe-se lá. Se em vez de Sócrates, este périplo tivesse sido feito por António Seguro, eu compreenderia da necessidade de se estar seguro nos mais importantes centros de decisão da dita Europa comunitária.

Mas não. Quem abalou para essas paragens foi um ex-primeiro ministro de Portugal e, não o querendo criticar pelo facto de viajar tanto, acho que pode e se calhar até deve, correr mais mundo e conhecer novas oportunidades, novas amizades, apesar do pouco sentido de fair play político, e quem sabe pessoal, que patenteou durante a sua governação.

Perguntarão certamente os meus amigos leitores o que tenho eu a ver com estas idas e vindas de tão popular político. Pois bem. Muito pouco, se de facto estivéssemos a falar de um qualquer anónimo político dos muitos que temos. Mas não. Como antes referi, estamos a falar em torno de uma figura que esteve à frente de um Governo vários anos e que, é a minha opinião, conseguiu a proeza de governar pior que o pior governo de que tenho memória desde 1974. Até Santana Lopes, o tal que foi despedido por Jorge Sampaio e sem que ainda hoje me tenham convencido a despeito de tal “despedimento” – afinal há muito político que governa sem que alguma vez se tenha submetido ao escrutínio popular - até ele foi capaz de fazer um pouquinho melhor que Sócrates.

E aqui chegados, os que habitualmente passam os olhos pelas minhas crónicas, terão já compreendido que me é completamente indiferente ter à frente do meu País um governo de esquerda, de direita, de centro-esquerda, de centro direita ou seja lá de que área for. Tempo houve em que isso me preocupou. Hoje, borrifo-me simplesmente para todas essas tendências com que alguns quiseram marcar, a ferro e fogo, a diferença, entre movimentos, partidos políticos, associações partidárias e o mais que quiserem.

A mim, o que me preocupa é a fragilidade dos valores, a má consciência que pode alterar o estado de espírito de quem perde neste jogo da política. Importa, isso sim, conhecer bem os parceiros da caminhada e, sendo eles confiáveis, ajudá-los no objectivo a atingir. É com esse ímpeto que politicamente me movo.

E digo-vos mais: mesmo aqueles que em termos políticos invariavelmente considerei hostis à minha filosofia de vida, sempre achei que a maior distinção que nos pode conferir o destino, é deixar-nos combater um certo tempo do lado dos nossos adversários. Tão-só porque assim nos predestina a uma grande vitória.

Exposta a coisa deste modo, e voltando às viagens de José Sócrates, só espero e quero acreditar que este ex-governante não ande a tramar coisas pelas costas de quem foi eleito e tem legitimidade para o fazer. E mais. Também quero crer que os líderes que o receberam, não andem, eles próprios, a dar cobertura a tais atitudes. Era só o que nos faltava para, então sim, desistirmos de vez desta utópica e inatingível Europa comunitária.

Eu sei lá. Na política já vi tanta coisa surrealista, e como o ódio é um sentimento negativo que nada cria e tudo esteriliza, sempre é melhor desconfiar do que não entendemos, pelo menos até que percebamos o significado de alguns actos.

Como disse Camões: “ qualquer fraco rei, faz fraca a forte gente”. E a forte gente somos nós e já tivemos fraco rei por tempo suficiente para aprendermos a destilar doçura sobre as amarguras que nos criaram.

Mário Rui


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Manifestações



Um grupo de jovens angolanos está a convocar para o próximo sábado, dia 3 de Setembro uma manifestação em Luanda a pedir a "retirada do Presidente Eduardo dos Santos do Poder e do seu Executivo" e a eleição directa do Presidente da República, entre outras medidas.

Eu acho que se o caudal do descontentamento engrossa, não se augura grande coisa... ...

Mário Rui

Uma carta à esquerda americana

Nada causou impressão mais duradoura durante minha viagem à América do que o estado semicomatoso no qual encontrei a esquerda americana.

Sei, é claro, que o termo "esquerda" aqui não tem o mesmo sentido e ramificações que tem na França.

E não sou capaz de contar quantas vezes já me disseram que nunca houve uma "esquerda" autêntica nos Estados Unidos, no sentido europeu.

Mas no fim do dia, meu amigos progressistas, vocês podem cunhar ideias da maneira que quiserem. O fato é: Vocês têm uma direita. Essa direita, em grande parte graças ao seu batalhão neoconservador, trouxe uma transformação que é substancial e alarmante.

E o facto é que nada remotamente como isso tomou forma no outro lado -- ao contrário, através do espelho da "esquerda" americana repousa um deserto de sortes, um silêncio ensurdecedor, um vazio ideológico cósmico que, para um leitor de Whitman ou Thoreau, é completamente enigmático. Os "jovens" democratas sessentões que se apegaram às velhas fórmulas da era Kennedy, as pessoas de MoveOn.org que foram tão boas em registar eleitores, em protestar contra a guerra no Iraque e, finalmente, em ajudar a revitalizar a política mas de quem ouvi tratar, em Berkeley, como puritanos de um novo tipo, dos lapsos de um presidente libertino como quase-equivalentes ao neomccarthysmo dos seus maiores rivais políticos; os estrategistas anti-republicanos confessando que nunca pisaram em uma destas megaigrejas neo-evangélicas que são os mais avançados (e mais maquiavélicos) laboratórios do "inimigo," olhando-me com descrença quando disse que ocupei um bom tempo explorando-as; o ex-candidato Kerry, que encontrei em Washington algumas semanas após sua derrota, pálido, fantasmagórico, debilmente cochichando no meu ouvido: "Se você ouvir alguma coisa sobre aqueles 50 mil votos em Ohio, me avisa;" os partidários da senadora Hillary Clinton que, quando questionei exactamente como eles planejavam empreender a batalha de ideias, casualmente responderam que tinham que vencer primeiro a batalha do dinheiro, e que, quando persisti em perguntar para que o dinheiro serviria, que projectos ele iria abastecer, responderam como autómatos angariadores enlouquecidos: "Para levantar mais dinheiro;" e quando, talvez mais do que tudo, quando fui ao sangue vital da esquerda, os escritores e artistas, os homens e mulheres que modelam a opinião pública, os intelectuais -- encontrei uma falta de vida curiosa, um traço peculiar de timidez ou irritabilidade, quando confrontados com tantas questões fervilhantes que em princípio devem mantê-los tão firmemente mobilizados, como a Guerra do Iraque e o assim chamado "Império Americano" (a denúncia do qual é, infelizmente, tudo o que resta quando eles não tem nada mais a dizer).

Para um observador de fora é estranho, por sinal, que vários progressistas precisaram, como eles mesmos admitiram, esperar pelo Furacão Katrina antes de se indignarem com, ou mesmo de serem informados sobre, a completa escala de pobreza arruinando as cidades americanas.

Para um intelectual europeu acostumado com o campo de batalha das ideias, é simplesmente incompreensível que mais vozes não tenham se levantado no passado, em nome de não menos que a força "do Esclarecimento," para denunciar a fraude ridícula dos defensores antidarwinianos do "desenho inteligente."

E o que dizer da pena de morte? Como pode ser que ainda não haja, dentro dos partidos políticos, especialmente no Partido Democrata -- o qual todo o mundo sabe que nunca sairá do lugar sem pressão interna decisiva -- uma corrente de opinião reclamando a abolição dessa barbárie civilizada?

E Guantánamo? E Abu Ghraib? E as prisões especiais na Europa Central, aquelas áreas nas quais a força da lei não mais se aplica? Sei, é claro, que a imprensa as denunciou. Sei que vocês tem jornalistas que, em questão de dias, realizaram o que nossa imprensa francesa ainda não concluiu, quarenta anos após a Guerra da Argélia. Mas desde quando a imprensa exime os cidadãos dos seus deveres políticos? Por que não ouvimos de mais intelectuais como Susan Sontag -- ou mesmo Gore Vidal e Tony Kushner (de quem discordo na maioria dos outros assuntos) sobre tal questão vexatória e vital? E que devemos fazer do punhado de indivíduos que, após 11 de Setembro, lançaram o debate sobre as circunstâncias a tortura pode estar repentinamente justificada?

E não estou nem mesmo falando sobre Bush. Nem menciono as mentiras grosseiras de Bush sobre as armas iraquianas de destruição em massa, excepto com o fim de apresentar a evidência conclusiva. Sei, é claro, que vocês o denunciam -- mas mecanicamente, estou quase tentado a dizer ritualisticamente. E, contudo, os Estados Unidos quase impediram Nixon porque ele espionou seus inimigos e mentiu. Eles [quase] impediram Clinton por causa de uma mentira perdoável sobre conduta inapropriada. Como pode ser, então, que se leve tanto tempo para desenhar um paralelo entre essas mentiras e uma mentira sobre a qual o mínimo que se pode dizer é que suas consequências são tudo menos perdoáveis? Como pode ser que tão poucos "intelectuais públicos" possam ser encontrados, no interior dos limites desta formidável, impetuosa democracia americana, que possam lançar a ideia de impedir George Bush por mentir?

Alguns responderão que o "intelectual público" é uma especialidade europeia, que não devemos culpar os americanos pela infidelidade a uma tradição que não é a deles. O que esses desmancha-prazeres fazem com o Norman Mailer dos anos 60? Do Arthur Miller de The Crucible? Ou daquela idade do ouro da consciência dos direitos civis, quando grandes escritores enunciaram o que era certo e bom e verdadeiro?

Outros objectarão que a mobilização massiva e retumbante da sociedade civil não é um costume americano. Tudo o que você precisa para convencer-se da falsidade disso é lembrar dos anos 60 e do movimento pelos direitos civis, depois pelos direitos das minorias em geral, os quais eram a grande honra do país e fluíram, é preciso enfatizar, de todos os principais partidos políticos.

Há ainda os que ironizam sobre a doença de escrever petições, uma especialidade francesa afastada pelo pragmatismo americano. Aqui a objecção é mais séria; e eu sei da fatuidade que pode existir na mania do engajamento ininterrupto em nome de um miríade de causas -- mas vocês não se afligem, meus amigos americanos, com a doença radicalmente oposta? A ética da sobriedade não venceu muito frequentemente, entre vocês, sobre a ética da convicção? E como pode alguém não esperar por uma petição que se dirija à nossa náusea comum quando estamos ante o espectáculo de um velho diabético, cego, quase surdo, empurrado na sua cadeira de rodas à câmara de execução de San Quentin, na Califórnia?

Posso estar enganado, mas me parece que uma grande parte do país está esperando por isso. Em todo o lugar, no recôndito da América, você pode encontrar homens e mulheres que esperam por grandes vozes capazes de ecoar sua impaciência de maneira significativa. Se eu fosse um escritor americano, tentaria reflectir sobre as lições do século totalitário e sobre aquelas da democracia, no estilo de Tocqueville, tudo de uma vez, de um só fôlego, com o mesmo rigor.

Bernard-Henry Lévy

Reportagem sim, mas com maneiras



Também já estávamos cansados de ver o José Rodrigues dos Santos de capacete e colete à prova de balas, no deserto, a fazer reportagens. Ora vejam lá se o Sr. Bernard-Henry Levy não se esmerou e só lá vai de fato. Um homem não pode perder de vista o seu próprio aspecto. Quer chovam balas, obuses, granadas ou apenas o pó do deserto, a compostura é muito bonita... É que o Sr. BHL teve uma educação esmerada num colégio da Suiça.

Mário Rui

sábado, 27 de agosto de 2011

Os sorrisos do Mundo




As fotos que vos deixo em cima, retratam uma ilha, deixem-me chamar-lhe assim, não muito longe do mar da praia da Torreira, sobre a qual fumega uma montanha incandescente de gente jovem que há-de ser o futuro do país que somos. É juventude que não quero criticar já que acredito que serão estes os homens e mulheres de um amanhã mais risonho, mais dado a um certo desprendimento dos formalismos que nos incutiram, a nós mais velhos, e que, afinal, acho que fizeram de nós próprios inventores de novas algazarras, de novos egoísmos e quiçá até de novas hipocrisias.

A montanha incandescente de gente jovem de que vos falo, parece-me não querer inventar novas algazarras mas antes inventar valores novos. Podemos discordar quanto aos propósitos que movem esta juventude, mas há factos que, relativamente à mesma, são já hoje dados adquiridos e visíveis aos olhos de qualquer espectador mais circunspecto. Desde logo criados e vocacionados para uma nova cultura, chamem-lhe académica, social, humana, tolerante ou o que muito bem vos aprouver. Mas, estaremos todos de acordo, se vos disser que é uma massa humana que nos concede, se calhar pela primeira vez desde há muitos anos, um olhar amigável, uma atitude de antemão favorável.

Bem sei que brincam muito, neste ou naquele aspecto mais pavões que o desejável, às vezes mais impetuosos que o necessário, mas a verdade é que também há neles intensidade de sentimentos, maturidade de actos e isso significa seriedade e conhecimento do que é importante fazer logo de seguida. E é destes últimos sentidos que vem toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade que os acompanha.

Correndo o risco de estar a sobrevalorizar estes espíritos novos, dirão alguns, facto com o qual não quero concorrer porque não é minha intenção menosprezar gerações anteriores, tudo o que desejo é que o julgamento e as condenações morais não continuem a ser a vingança predilecta de algumas inteligências mais velhas e limitadas. E nós conhecemos tantas.

Regressando aos novos, e da minha experiência vivida bem próxima deles, sobeja-me espaço e tempo para proclamar, no que aos mesmos diz respeito, quanta bondade há nas suas astúcias.

Necessário é que nós, os mais velhos, possamos trazer à luz do dia todos os mistérios de que somos feitos de modo a que estas gerações mais jovens sempre tenham presente que não se constrói o império com os materiais. Os materiais é que se absorvem no império.

Vivam bem e aqui deixo um aplauso pela vosso bom gosto em criarem ramos, flores e frutos. Só assim o mundo há-de ser um sorriso.

Mário Rui

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Angustia existencial



O cartaz é de Outubro de 1976, da empresa Jornal do Comércio, S.A.R.L. , impresso em 67x97,5cm em 10 mil exemplares. ( tirado do livro A Guerra dos Cartazes, publicado em Abril de 2009 pela lembrabril). As instruções para colar este tipo de cartazes eram conhecidas: " Planear a acção; local de colagem;não colar em locais mortos; colar nas praças de maior movimento, zonas comerciais,paragens de autocarro, estações de metropolitano". A importância da primeira colagem também fazia parte do manual de instruções: "Ocupação de locais; não colocar baixo, facilmente se arrancam; colar direito e ao alto, principalmente quando se fazem manchas com vários exemplares; colar em mancha em locais amplos de paragem automobilística."

Será que, apagando o símbolo da UDP, os ricos começam mesmo a colar cartazes destes por aí fora? Os ricos de fora. Os de dentro, tenho a certeza que vão arrancá-los das paredes. Certamente que o primeiro a fazê-lo, porque será talvez o de estatura física mais alta, é o número onze na lista dos portugueses mais abastados, e que considera que “temos que nós ajudar uns aos outros”. «Todos nós, incluindo as pessoas que têm mais flexibilidade financeira, não estamos bem, ninguém está bem com a situação presente. Não se pode pôr mais impostos sobre o povo que tem tão pouca remuneração», acrescentou o empresário Joe Berardo.

Que compaixão eu tenho por este senhor. Que grandes nós terá o senhor nessa cabeça. Trate urgentemente da sua depressão não vá ela virar angustia existencial. Faça-o em nome do nosso país !

Mário Rui
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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um destes dias havemos de falar sobre estas amizades

Acabadas umas curtas mas saborosas férias, após mais um ano de trabalho que sempre me parece uma eternidade, lá se foram as delicadas leituras, subsequentes interpretações estampadas no papel electrónico que mentes brilhantes nos disponibilizaram, e, claro, lá se foram de novo os momentos tranquilos para essas interpretações.

Preparando-me para mais trezentos e não sei quantos dias de “luta”, fica-me sempre a sensação de que intelectualmente começo a regredir na justa medida em que me ocupo das tarefas profissionais a que alguns chamam de “ganha pão”.

Não que discorde deste modo de retratar o trabalho. Afinal ainda vou engrossando a corrente que, melhor ou pior, vai produzindo alguma coisa de útil para o país. O meu mal-estar, quanto ao dito trabalho e que de resto já se vem manifestando há algum tempo, encaixa-se, isso sim, a um outro nível que tem mais a ver com uma citação que li, seguramente através de um dos meus autores preferidos, e que diz assim; “o trabalho é bom quando dá prazer. O grande problema é quando o prazer começa a dar muito trabalho”.

Nunca confundir por favor este pensamento com o do outro que matava, estropiava, seleccionava e, ainda por cima, inscrevia no sítio de todos os horrores: “o trabalho liberta”. Nada disso, nada de mentes loucas.

Mas voltando ao que me interessa, ainda não encontrei melhor e mais simples maneira de exteriorizar o que sinto pelo que, com a idade, cansaço e pouca vontade de remar contra a maré que dia-a-dia de mim se apodera, passei a indiscutível fã da segunda parte da primeira citação. Pensem o que quiserem, mas é este mesmo o estado em que me sinto.

Vivo, apesar de tudo. Atento, mau grado o gosto de alguns, crítico e quantas vezes cáustico, pese embora tal não satisfaça espíritos mais fechados. Cada um é como cada qual e, já agora, nunca esqueçam, afianço-vos eu, que este estado pessoal de coisas não é afinal, ainda que neste particular a meu contra-gosto, muito diferente do Estado a que pertencemos.

Também quero e devo acrescentar que, acima de tudo interessam-me os destinos da minha Pátria. É aliás por isso que ainda escrevo, às vezes faço rádio, ocasionalmente faço coisas que resultam das minhas imperfeições e é bom de ver que então já me chegam os problemas que tenho para manter a minha vida em ordem e para me entender com os capitalistas, os sexualistas, os utopistas, os mitómanos, os demagogos, os internacionalistas, os comunistas, os trotskistas e até com o Sindicato dos Alfaiates.

A vida não é fácil. Nem para mim! Mas sinceramente não me sinto infeliz, medíocre, repulsivo ou mesmo vazio. E ainda bem que o destino me concedeu até hoje uma vida limpa e sem desmedidas ambições, que pude acompanhar o crescimento dos meus filhos, ouvir-lhes o palrar e as primeiras palavras. Se cheguei tão longe foi precisamente porque em todos os lugares onde estive, sozinho, com eles ou com a mãe deles, sempre me senti na minha própria casa.

É por tudo isto que eu acho que uma reputação feita era antigamente objecto de primeira necessidade. Hoje, assim não acontece. E esta é a razão pela qual vos disse há alguns dias atrás que ainda havia de ter uma conversa com algumas mentes mentirosas. Deixo-vos em cima o retrato ou o exemplo que nunca deveria sê-lo, das mentiras do nosso mundo.

Não observaram ainda a amizade criadora de Obama, a pomba branca, de Sarkozy o tal que se limita a ser ambicioso sem que o consiga, do sedutor Berlusconi, ante a serpente Kadafi, que um dia disse que bem e mal são preceitos de Deus, que ele amará mas que deve ser uma originalidade só dele. Certo, certo, é que chegado o tempo em que já não dá jeito o aperto de mão, o abraço caloroso, então vai daí e expulsem-no do país, com bombas, com metralhas, com asas voadoras, porque ele é um sabotador da tranquilidade e da ordem internacional. Liquidem-no porque ele despreza o seu próprio povo. E de facto é verdade! Só que toda esta acção tem um pequenino grande problema.

Quer seja na Líbia ou noutro sítio que lhes seja favorável - recordam-se do Iraque? - foram estes apertadores de mãos que criaram os monstros tolos em que se tornaram os delfins de outrora. Quais foram as virtudes que os mais fortes viram em terras longínquas para, em dado momento, o certo, elegerem cáfilas de malfeitores que subjugassem os da sua própria raça? Nós sabemos muito bem quais foram esses dons que as potências reinantes vislumbraram e apoiaram por décadas a fio. E também sabemos que em vez de apresentarem a verdade nua e bastante fácil de que a vossa acção «desinteressada» mais não era do que uma acção muito “interessante” e “interessada”, deu no que deu. O mais que conseguiram foi virar o feitiço contra o feiticeiro! Sim, porque embora o mundo seja isto mesmo, não tem que ser sempre isto mesmo. Uma interesseira alta espiritualidade jamais se poderá comparar com a honradez e a respeitabilidade de qualquer espécie dum homem puramente moral.

Temos de obrigar as falsas morais a curvarem-se, antes de mais nada, perante a hierarquia de quem persegue virtudes. É o que me parece.

Por isso mesmo é que, neste escrito, vos falei abertamente de mim, um pouco dos meus e um tudo-nada dos outros. E sabem porquê? Porque hoje pediram à minha mulher que lhe emprestassem o “livro de instruções” de que se serviu para educar os nossos filhos.

Ainda que me canse o meu trabalho, se me escape algum prazer em fazê-lo, não ambicione desmesuradas dimensões, ainda que os juízes mais sagazes às vezes estejam convencidos do carácter culpável das práticas dos feiticeiros do nosso tempo, não acredito que essa culpabilidade seja castigada. É também por tal facto que há pessoas a quem não devemos estender a mão em jeito de saudação. E se tivermos forçosamente de o fazer, então devemos procurar que elas tenham unhas bem aguçadas para picar fortemente as suas mãos. Queremos um mundo melhor.

Mário Rui

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Algarve





Regressei do Algarve e estou de volta a Portugal. É pena! Começava a habituar-me a uma vida perfeita longe do meu país de origem. Mas como tudo o que é bom acaba rápido…

Com a minha ida ao Algarve vim a descobrir que a crise é selectiva e, curiosamente, detesta os ares do sul. Lá em baixo não há carro, casa ou iate que se deixe abater por ela, o que acaba por ser uma desilusão porque sempre me disseram que a crise é como o sol: quando vem é para todos.

Não tinha oportunidade de ir ao Algarve já fazia cerca de dez anos. Talvez por isso as coisas me tivessem parecido mais intensas, únicas e especiais. Da praia, do mar e das festas de final de tarde às noites quentes e às mulheres, tudo no Algarve tem um toque que parece muito pouco nacional.

Passar férias no Algarve faz-me sentir como se estivesse a passar férias em Miami, mas a pagar em euros. A água do mar é calma e quente – com temperaturas a rondar os 24 graus -, as pessoas fazem-me acreditar que as mulheres portuguesas são mesmo das mais bonitas do mundo, as festas de final de tarde na praia e que se estendem até à noite não deixam ninguém indiferente, a quantidade e qualidade de dj’s internacionais que por lá passa fazem os cartazes dos principais festivais de Verão parecerem para meninos e o ambiente que envolve tudo isso não se vê em mais nenhuma parte do país.

Mas o Algarve é cada vez menos nosso dada a quantidade de estrangeiros que por lá passa. Mas não deixa de ser menos entusiástico saber que temos algo de bom para lhes oferecer. E verdade seja dita, os preços que lá se praticam são um mimo para eles. Para nós, tudo no Algarve parece disforme e antagónico para um povo que, na sua grande maioria, sofre com as dificuldades económicas actuais.

Para mim, o Algarve passou a ser como um grande amor de Verão, mas daqueles que não ficam enterrados na areia e sem o qual eu não saberei viver a cada ano que passa.


Rui André


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Campeões assim?


Como a solução para a maior parte dos nossos problemas passa por assumi-los, também o problema que é a falta de humildade de alguns clubes portugueses de futebol deveria ser ultrapassado assumindo que o erro passa muitas vezes pela incompetência e falta de dedicação dos seus respectivos jogadores e dirigentes, mais do que a incompetência dos árbitros de que tanto se fala.

É admissível e moralmente aceitável, pois, que uma equipa que pratique bom futebol se queixe da arbitragem quando esta se revela tendenciosa. Já não o é quando uma equipa que pratica um futebol vergonhoso se desculpe com as decisões erradas do árbitro quando nada fez em campo para inverter o resultado.

Mais lamentável do que a situação que envolveu a ausência do árbitro no jogo da 2ª jornada do campeonato que opôs o Sport Clube Beira-Mar ao Sporting Clube de Portugal, é a tentativa cobarde dos que procuram bodes expiatórios para o insucesso da sua equipa.

O Sporting Clube de Portugal não pode e não consegue escapar à realidade nua e crua que lhe corre nas veias: o mau futebol que tem vindo a praticar nos últimos anos envergonha e desmoraliza os seus adeptos e ridiculariza a própria instituição.

Há muito que não via tão mau futebol como aquele a que assisti à 2ª jornada em Aveiro. Por isso, não posso achar admissível que uma equipa como a do Sporting que todos os anos se apresenta como candidata ao título se continue a desculpar com a incompetência dos árbitros, quando o único motivo para os seus sucessivos insucessos é tão só o de que as outras equipas são sempre melhores e eles medíocres no futebol que praticam.

Longe de mim pedir que pratiquem o melhor futebol ou que vençam todos os jogos que isso não me dava jeito nenhum. Peço apenas que evitem o embaraço de vos verem como uma instituição que, ao negar a visível falta de competência dos vossos jogadores e dirigentes, se torne tão baixa e mesquinha e que em nada se coaduna com a grandeza a que há muito tempo atrás habituaram os vossos adeptos.

A mim dá-me imenso jeito que continuem a jogar assim. Mas é preferível que assumam a vossa falta de qualidade em vez de nos sujeitarem a todos nós com desculpas de mau perdedor.

Rui André
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sábado, 20 de agosto de 2011

Ilusões



Mas como será possível que pessoas se passeiem tranquilamente dentro de uma piscina sem se afogarem?

Não se trata de uma piscina, mas uma recriação do artista argentino Leonardo Erlich – um criador de ilusões.

Uma velha piscina foi aproveitada para esta ilusão: no topo, foi montada uma estrutura de vidro laminado; sobre o vidro laminado, água.
Uma abertura, no exterior da piscina permite aos visitantes entrarem lá para dentro e experimentarem a sensação de caminhar debaixo de água – completamente secos.
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Interrogações e às vezes certezas

Não que seja minha preocupação falar-vos da multiplicidade de doutrinas, ou se preferirem de religiões, que caracterizam o nosso tempo. Sendo certo que as há de cariz ao mesmo tempo religioso, social e político, também não é menos verdade que outras se ficam apenas pela fé e pelo carácter social de que estão ou são embuídas.

Não é igualmente minha intenção filosofar em redor do que cada uma das muitas que por aí professam, transmitem aos respectivos crentes. Ser-me-ia difícil traduzir em palavras ou até em pensamentos o que verdadeiramente representam tantas doutrinas para cada um dos seus seguidores. Esta dificuldade, é bom de ver, resulta apenas da minha ignorância e impreparação para tratar tal tema com alguma, mínima que fosse, propriedade.

Também não quero fazer juízos de valor em relação às práticas de que cada uma se serviu, ou serve, para levar por diante os seus intentos. Não esqueçamos que, genericamente, todas amaram e amam o próximo e o seu próprio profeta, leia-se Deus, ainda que de maneiras diversas. Todas, ou quase todas, mutilaram, mataram, em nome de uma fé que aos olhos de civilizações tidas como avançadas no tempo, foi, e ainda é, algo de difícil compreensão senão mesmo de inconcebíveis actos.

Quase me apetece dizer que a crença, a religião indistinta, não tem ainda um fim em si mesmo. Às vezes, digo eu, o apreço pelo rebanho é mais antigo e forte que o apreço pelo indivíduo.

Bom, mas como disse no início, não vou dissecar em função destes últimos considerandos, até porque se o fizesse estaria a negar-me a mim mesmo. É que eu também tenho um Deus. Imagino que diferente do Deus de outros crentes, mas mesmo assim o meu Deus. Consola-me e dá-me ajuda manter-me sempre discípulo de um mestre. Não sei se assim é com outros da minha espécie, mas também não é importante que assim seja. Crucial é que nunca deixemos que o joio pretenda passar por trigo.
Vem tudo isto a propósito da recente visita do Papa Bento XVI a Espanha. E o que adiante vou dizer, é igualmente verdade quanto a qualquer outro destino geográfico que o Papa tenha, ou venha a traçar.

Na busca do conhecimento, não o querendo profundo demais porquanto se tornará necessariamente metafísico, quantas vezes já me interroguei sobre a mole humana, de verdadeiros crentes, presumo eu, que sempre acompanham e veneram esta figura papal esteja ela onde estiver. Sinceramente, aplaudo com gratidão este modo religioso de estar do bom e do mau, do pobre e do rico, nobre e plebeu, e todos os outros nomes que engrossam o número de fiéis que sempre dizem “presente, eu estou aqui”.

Interroguei-me e continuo persistentemente com dúvidas, porque me faltam respostas capazes, para tal correnteza de fé. Caberá aqui dizer que a fé, tal como o amor, não se discute. É! E quanto a isto por aqui me fico.

Voltando então ao cântico e à dança em redor da figura católica, apostólica e romana papal e, se quiserem, porque estou aqui de espírito aberto a outras figuras de fé que arrastam multidões, digam-me lá, se este caudal humano é movido por uma espécie de tendência ascensional que a mais não aspira senão a um Mundo melhor, personificado através destas figuras. Será isso?

Confesso que os meus olhos vislumbram sempre, sobretudo aquando da proximidade do Papa, não conhecendo tanto que o mesmo possa dizer em relação a outras religiões, olhares de júbilo, de alegria, de vontade de viver e de sentir que a vida em si mesma não é um fim mas antes um meio. E parece-me tão verdadeira esta maneira de louvar, quer se trate de jovens como de menos jovens que, a mim, mais perplexidade me causa. E, repito, não retrato este quadro em sentido crítico, bem pelo contrário quero fazê-lo na mais pura e tolerante inocência dos meus pensamentos.

A minha grande questão continua a ser, simultaneamente, tentar entender esta alegria que, diga-se em abono da verdade, muitas vezes contagia o longínquo, e a grande causa que a motiva. Se repararem bem, não me interessa estar aqui a fazer a apologia desta ou daquela crença. Importa-me muito mais saber que ela torna felizes alguns seres, e não são poucos, felicidade que em muito se assemelha a algo que é como dizer: “hoje consegui escalar esta alta montanha para pescar peixes”.

É de facto fascinante a existência, em total disponibilidade, de povos, a quem até podeís chamar de vivências apenas medíocres e vulgares que, somados aos mais difíceis, mais delicados, mais subtis, instruídos, e se vos agradar aos mais nobres, se unem num propósito único: o de terem um ideal nobre em vista.

Depois, até se podem separar, cada um para o seu canto, mas eu sempre achei que mesmo após a separação, para estas personagens a dor também é alegria e quantas vezes a noite é um Sol também.

Expliquem-me mais e melhor, se souberem, para além do que eu penso e, se assim for, só vos poderei elevar à condição de sábios. Mas a populaça será também ela toda ouvidos para as vossas justificações.

Mário Rui
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Os muros e as mentes





Quase me esquecia de vos dizer que no dia 13 de Agosto de 2011, o muro de Berlim, derrubado em Novembro de 1989, faria 50 anos. É bom que não esqueçamos estas datas. No entanto, é provável que em exame mais rigoroso alguns se sintam divididos pelo espírito de análise crítica e histórica da nossa cultura relativamente a tal monstruosidade. O que foi por demasiado tempo grande privilégio de alguns, não foi com toda certeza nada de comum com o nobre carácter de muitos, muitos mais.

A minha opinião é que teríamos de desesperar cruamente da nossa alma de seres humanos se estas horrendas invenções de mentes doentias persistissem. Os muros, as barreiras, nunca aproximaram ninguém. Bem pelo contrário. Segregaram espíritos bons!

Mário Rui
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Onde nascem as reformas?

Como dizia há dias, num dos meus escritos, a saga continua. Os acampados em Espanha, as batalhas na Grécia, as manifestações em Israel, os incêndios em Londres, as pilhagens em Birmingham, Liverpool, Nottingham e Bristol. Polícias e ladrões. Os bons contra os maus. A lei contra a anarquia.


Mas agora quero acrescentar a esta lista mais alguns episódios que fazem capa nos jornais ditos de referência que estampam outras realidades, afinal não muito diferentes das primeiras, ainda que mais pacíficas em termos de actuação.


Se bem que os contestatários de Bento XVI tenham levado porrada pelo facto de estarem contra os gastos da visita do Papa a Espanha, ainda assim, o que podemos ler na imprensa dos últimos dias tem mais a ver com; Estado gasta por ano 57 milhões de euros em rendas, crise fez aumentar em 23% o fecho de empresas nos 3 primeiros meses do ano, propostas de Sarkozy e Frau Merkel para o reforço da (des)governação europeia não convenceram os mercados, Messi derrota José Mourinho e Ronaldo – e aqui deixem-me salientar o que um tio meu, quando o tema da conversa versava futebol – sempre dizia e com gozada razão: “ … pois, pois, continuem a falar de futebol já que sempre que se marca um golo, o mundo pula e avança…” – subida de preços dos manuais escolares, câmaras cortam 633 postos de trabalho, mas despesa aumenta, o que é um serviço público de TV, e a isto junto que em 2002 um "grupo de trabalho" entregou as conclusões ao governo de Durão Barroso. Não foram aproveitadas e desde então a RTP torrou 2 mil milhões de euros públicos.


A conclusão principal do tal estudo seria a de diminuir os encargos com a TV do Estado, mas foi precisamente o contrário que sucedeu. Cá por mim não tenho grande opinião sobre o assunto porque a RTP não me interessa enquanto estação de TV do Estado uma vez que não se distingue das demais e consome muito mais recursos públicos.
Logo, privatizar ou não é-me indiferente. E só não o será para aqueles que "mamam" habitualmente no úbere do Estado cada vez mais depauperado, incluindo os respectivos trabalhadores cuja produtividade em alguns casos deve ser lendária.


É certo que outros destaques também contidos nesses jornais, nos vão transmitindo, ainda que com pouca convicção, alguma esperança de uma vida melhor, aspectos da actividade quotidiana do País e do Mundo.


Numa rápida vista de olhos pelos principais títulos parece-me de todo importante relevar da recente descoberta de 17 novos anticorpos contra o VHI e que podem vir a ajudar a desenvolver uma vacina conta a sida. Evidentemente que todos nós nos regozijamos com esta descoberta.


Aqui sim, haverá com toda a certeza um bom motivo para que nos alegremos, nem que seja por escassos instantes. Chama-se a isto e a tais factos similares, «civilização» ou «humanização». Ou, então, se preferirem, chame-se-lhe simplesmente sem louvor nem censura, e se quiserem também com uma forma mais ou menos política, o verdadeiro movimento democrático do mundo e da Europa em particular.


Ainda a propósito dos destaques que nos vão dando alguma necessidade de crença, li que, um tal de Warren Buffett, lá da terra tio Sam, pediu ao congresso norte-americano, para deixar de mimar os super-ricos. Esse apelo de “por favor cobrem-me mais impostos que eu já me estou a sentir mal” surgiu depois de conversar com os seus amigos mega-milionários a quem os impostos só têm feito cócegas. Como? Percebi bem? Voltei a ler o artigo, e é assim mesmo, ipsis verbis.


Como eu gostaria de saudar, ou só acenar um leve cumprimento a este homem que, sendo um dos três mais ricos do Mundo, sem medos e sem preconceitos, diz abertamente o que pensa. E a atitude, pouco me importando de onde lhe veio tanto dinheiro, é, quer se queira ou não, atitude de quem possui a grandeza de se tornar não apenas superior na acção, mas também uma consciência de louvada justiça.


Pena é que, como diria o pensador, «o que nós fazemos de bom, raramente, ou mesmo nunca, é compreendido, mas somente louvado ou condenado». Ao que julgo saber, assim aconteceu e 12 membros do super comité do congresso norte-americano que tem como missão reduzir o défice, recusaram sequer trocar umas ideias sobre o assunto. Lamentamo-nos de uma Europa que perdeu o Norte e consequentemente se perdeu no caminho. Pobre América que também já não se poupa à vergonha de tal consolação.


Pobre Mundo este que não percebe que cada um dá o que pode e quer, e ainda assim é vilipendiado na praça pública. No nosso pequenino País, com fortunas pessoais colossais, nunca assisti a tal oferenda, ou melhor a tanta humildade que só poderia vir de alguém com muitos sonhos, de alguém que sempre tenha estado em permanente vigília quanto à má sorte dos outros.


Esse, a existir, seria o verdadeiro reformador de consciências, desconfiando eu, no entanto, que seria também condenado qual Warren Buffett.


Acabo já. Só gostaria de rematar os meus pensamentos acrescentando que, da Europa já esperamos tudo. Mas se calhar o mal vem mesmo da América. Acabou-se o bom tempo de outrora, e foram alguns narcóticos desse paraíso passado que nos intoxicaram e nos traçaram o destino que há-de vir.
Mário Rui
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domingo, 14 de agosto de 2011

A bela época dos espíritos livres


Eliminadas as formas substanciais, só resta aos corpos
a extensão e o movimento. O resto há-de ser mecânica ...

Mário Rui
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sábado, 13 de agosto de 2011

Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
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Dos pobres e dos outros

Li hoje no jornal “Público” um artigo assinado por uma tal Sr.ª de São José Almeida que, francamente, me deixou enojado, é o termo, e onde a tal articulista se debruça sobre o Plano de Emergência Social que o Governo se propõe levar a cabo. Trata-se de um artigo extenso mas, para o caso, só me interessa falar um pouco a propósito de certas opiniões lá retratadas e de alguém que de facto me parece, posso estar enganado, da chamada esquerda caviar.


Se realmente isto é escrito por alguém que, na minha opinião, em muito se assemelha a uma certa esquerda bem instalada na vida, então até eu gostaria de, pela primeira vez, me filiar num desses partidos. Não sei se seria possível fazê-lo ao sábado mas, mesmo assim, talvez estivesse na disposição de hoje mesmo me munir de cadeira e guarda sol e por lá ficar até que as portas para a minha inscrição se abrissem. Provavelmente só na próxima segunda-feira.


E porque é que a senhora escreve o artigo? Porque se lembrou disso quando ouviu esta semana falar em algumas medidas do Plano de Emergência Social, governamental, para acudir à pobreza.


E porque é que a senhora se indignou tanto com este plano? Porque lhe lembra o "conceito de organização social que lhe está subjacente, uma organização da sociedade que aceita como normais as desigualdades sociais, para quem a existência de classes ou grupos sociais com direitos diferentes é da "ordem natural" do mundo ( conceito que de natural nada tem, e que procura ignorar que as sociedades humanas são construções obtidas da capacidade de racionalização e de abstracção do intelecto humano" ( sic).


Está aqui resumida a essência da ideologia de esquerda: a igualdade como conceito normativo e a forma de a combater, racionalizando e abstraindo...

Mas diz mais a erudita articulista : “é essa normalidade da desigualdade, essa aceitação de que há pessoas diferentes, que não podem ser iguais a nós – os que temos acesso a trabalho e a meios de sobrevivência -, essa conivência com a ideia de que há uns pobres que vivem das esmolas e dos restos, das sobras dos ricos ou dos remediados, salta de forma brutal e é recuperada enquanto conceito de análise e de organização social, quando se observa algumas medidas do chamado pelo Plano de Emergência Social (PES), apresentado nas linhas gerais pelo ministro Mota Soares.”


O que é curioso e ao mesmo tempo revoltante, é que a tal normalidade da desigualdade e essa aceitação de que há pessoas diferentes, que não podem ser iguais a nós, é-nos dada justamente por esta senhora que, segundo o escrito no seu artigo, tem ou tinha um irmão, lá na casa enorme onde viviam cheia de gente, numa família grande, que uma bela noite, já passava do jantar entrou pela porta dentro com três miúdos pela mão, descalços, sujos e ranhosos. Desde logo, minha senhora, antes de dizermos o nome dos outros é bom que nos demoremos um momento a lembrar a impressão que sentimos na presença da incomensurável tragédia humana.
Não seriam certamente descalços, sujos e ranhosos mas talvez antes a verdadeira significação de tão brusco despertar da tal tragédia humana de que falei há pouco. É diferente, não é?

Os meus pais não estavam e as empregadas (a Celeste e a Maria), ter-se-á enganado ou as suas criadas deixaram de o ser para serem só empregadas e, quiçá, como era corrente ao tempo (finais dos anos sessenta), nem por isso receberiam pelo trabalho que faziam porque para quem é de esquerda os privilégios dos pobres são o de trabalhar e não refilar, entraram em pânico com a novidade que o “menino” tinha inventado. Depois, acrescenta, que o “menino” meteu os três miúdos (evolução linguística natural de pessoa de teres e saberes) na banheira, encheu-os de champoo e sabonete e esfregou-os arduamente enquanto eles mudavam de cor. Vejam bem, de champoo e sabonete, qual epopeia homérica para aqueles três miúdos que mudaram de cor. Que jornalismo cretino!


Bem, sinceramente já nem me apetece acrescentar muito mais às minhas ortodoxas reflexões sobre o artigo do jornal e especialmente sobre a postura de quem assim escreve. Do PES, o tal plano de que a senhora muito desconfia, também não tenho vontade de o dissecar até porque ainda o não conheço.

Até pode ser mau, contraproducente, até pode ser uma segunda edição da sopa dos pobres dos anos sessenta. Logo veremos.


Agora, aquilo a que não deveríamos assistir no ano da graça de 2011 do século XXI, era a esta cultura de ópera com que frequentes vezes somos brindados por alguns articulistas.


Há gente pobre, muito pobre? Há, sim senhora! Há gente a quem a natureza humana nos obriga a ajudar? Há! E todos juntos havemos de o fazer, ainda que a história dos nossos dias acabe por ser um sem-número de pequenas cobardias, um sem-número de pequenas preguiças. Agora, o que a história dos sobreviventes das actuais calamidades não há-de ser é fingimento.


Por último e a quem interesse, deixei de gostar dos artigos escritos por esta senhora.Entendo que o que escreveu hoje, fere a sensibilidade dos que têm algum orgulho e estima própria, ainda que sejam pobres, descalços, sujos e ranhosos. Mas saiba a senhora que, mesmo assim, é mais difícil ferir a vaidade dos pobres quando foi ferido o seu orgulho.

Mário Rui

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Caos na NBA


Photoshop (Londres a ferro e fogo)

Mário Rui
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Pillage People (YMCA)

Photoshop (Londres a ferro e fogo)

Até no caos há comédia. Sinal dos tempos!

Mário Rui
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